Apesar de algumas (por vezes bem justificadas) incompreenses e desconfianas, bom que os jornalistas possam contar com a colaborao de especialistas, quando querem informar aprofundadamente sobre suicdios, agresses passionais ou criminalidade juvenil. E bom que saibam, com respeito profissional, valorizar adequadamente esses contributos.

No s em Portugal, longe disso, que os “assuntos melindrosos” aqui abordados na semana passada (“o “qu” e o “como” noticiar suicdios ou agresses violentas e particularmente chocantes, com o risco de que possam provocar reaces de mimetismo) preocupam os jornalistas, os leitores e… os provedores.

Uma rpida consulta a alguns colegas de ofcio de outras paragens alm-fronteiras tornou evidente como certos casos paradigmticos, sobretudo nos Estados Unidos, tm suscitado debates semelhantes ao nosso. Lembremo-nos das vrias histrias, em tempos no muito longnquos, de agresses a tiro, por parte de crianas ou jovens, nas escolas. Provedores de jornais americanos confrontaram-se, nessas alturas, com receio semelhante de imitaes. E as suas respostas sobre a matria no diferem na substncia: h que noticiar os factos com prudente medida, h que resistir ao engodo do sensacionalismo, h que no dar dos agressores imagem “herica”, h que ignorar detalhes de curiosidade mrbida – e h, enfim, que investir numa mais funda compreenso (logo, preveno) do que pode estar por detrs.

“Tambm recebemos queixas sobre o perigo de imitaes [o termo ingls "copycats"] aps alguns eventos, incluindo tiroteio nas escolas, aqui em San Diego”, diz a provedora Gina Lubrano. “Somos cuidadosos no modo de contar tais histrias e tentamos no as ‘sensacionalizar’ nem transformar em heris as pessoas envolvidas”.

De Sacramento (EUA), o provedor Sanders Lamont confirma que as maiores queixas dos leitores so recebidas quando a histria publicada no jornal “inclui detalhes grficos” e “pormenores sobre como o crime foi cometido”. Mas, embora com cautelas, no deixa de ser funo do jornalista “mostrar a comunidade tal como ela na realidade e no tal como gostaramos que fosse”.

Um colega japons, do gigantesco “Yomiuri Shimbun”, lembra que h algum tempo houve no seu pas um caso tpico de imitao, quando um adolescente se suicidou e acabou sendo seguido por alguns outros. Os “media” foram muito criticados pelo modo como trataram o sucedido, e algo aprenderam. “No apresentamos detalhes muito precisos sobre estes casos mas contamos o que se passou”, diz.

Um ltimo comentrio, vindo de um provedor do Canad (“The Toronto Star”): “No nosso jornal no costumamos noticiar suicdios. E a sensao que, a no ser que haja um motivo forte [recorda, por razes de relevncia pblica, a recente morte da mulher de Helmut Kohl] que prefervel no noticiar, para no provocar imitaes”. Nos casos de excepo, ainda assim, os textos devem ter “gosto e sensibilidade”, fugir ao sensacionalismo e tentar algum enquadramento (“put things in perspective”, na muito utilizada expresso inglesa).

Alguns jornais tm normas especficas nos seus livros de estilo, como o espanhol “El Pas”: “O jornalista dever ser especialmente prudente com as informaes relativas a suicdios. Em primeiro lugar, porque nem sempre a aparncia coincide com a realidade; e tambm porque a psicologia comprovou que estas notcias incitam ao suicdio pessoas que j eram propensas a tal e que sentem nesse momento um estmulo de imitao. Os suicdios devero publicar-se somente quando se trate de pessoas de relevncia ou suponham um facto social de interesse geral”.

Em termos genricos, para idntica preocupao que aponta o Livro de Estilo do PBLICO, quando considera inaceitvel violao da privacidade “a explorao sensacionalista de circunstncias e factos relacionados com dramas de natureza pessoal ou familiar”. Sobre casos do foro criminal, diz que “requerem um tratamento sbrio e distanciado, segundo critrios de inequvoco interesse pblico e recusando o sensacionalismo”.

Em sntese, sublinhe-se o insistente apelo sensibilidade e ao sentido de responsabilidade, quando se lida na comunicao social com temticas desta ndole. A linha que separa uma abordagem moderada de uma explorao desnecessria, para no dizer doentia, por vezes tnue. E inegvel a influncia, mesmo sobre a imprensa escrita, de televises com uma informao cada vez mais “tablide” que decide dar honras de manchete a um episdio menor s porque tem emoo, lgrimas, drama humano. E nem sempre basta levar a estdio um psiquiatra para dar um ar de preocupao com o enquadramento do caso: um minuto de conversa entre duas desgraas, volta e meia interrompida porque “o nosso tempo escasso”, d para reflectir seriamente em qu?

Neste aspecto, a imprensa escrita tem a vida mais facilitada (embora as televises tambm pudessem, para alm dos telejornais, desenvolver outros programas de informao menos “apressados”), e se calhar esse o seu papel especfico no aprofundamento sereno e distanciado destas questes. O certo que, seja nos casos de suicdio, seja nas agresses com cido, seja genericamente nos eventos negativos que podem ser mimetizados, os jornalistas precisam – e bom que saibam que precisam – do auxlio de quem trabalha estes problemas: psiquiatras, psiclogos, socilogos, assistentes sociais.

Tal como sucede noutros domnios (j aqui se falou, por exemplo, nas questes de divulgao cientfica), nem sempre os que esto de fora do universo da comunicao percebem as suas especificidades, e vice-versa. H muito especialista que receia falar para um jornal porque v no jornalista um “abutre” mais interessado numa frase rpida e sonante (que d um ttulo forte…) do que em compreender a complexidade do que est em causa, para poder depois transmiti-la bem aos seus leitores. E em no poucos casos so justos os motivos de receio…

Mas nem sempre assim . Embora um jornal generalista, mesmo exigente, no possa fazer-se revista especializada – sob pena de no ser entendido por boa parte dos leitores -, s lucra se puder contar com a disponibilidade e a compreenso de especialistas que, ajudando o jornalista a “trocar em midos” as situaes complexas, enriqueam o esforo informativo e a genuna vontade (que tambm existe…) de contribuir para melhorar a nossa vida em sociedade. Ento em casos dramticos como os de que falmos, especialistas de sade mental e jornalistas esto “condenados” a entender-se, sendo que uns e outros tero de fazer a sua parte de caminho para encontrarem um ponto de equilbrio entre as suas especificidades profissionais. O pressuposto uma base de compreenso e confiana mtuas – para o que convm realar os exemplos positivos que vamos tendo, como tambm denunciar os negativos. Mas no desistir, sobretudo no desistir. A benefcio de todos ns.

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