ENTRADA – Culminando um processo longo, em que o Pblico notoriamente se empenhou, foram divulgados os resultados do 12 ano das escolas secundrias do pas. Disse-se que era “a lista”. Mas no: ser mais rigoroso dizer “as listas”. Porque tantas houve e tantas outras poderia haver…

A caricatura velha e revelha, mas nem por isso deixa de nos alertar sobre os limites da estatstica apressada: se eu comi um frango e tu no comeste frango nenhum, cada um de ns comeu, em mdia, meio frango. Estatisticamente, claro.

Em poucas semanas como nesta ltima os leitores do Pblico tero conversado e pensado tanto em mdias, estatsticas, classificaes, “rankings”, nmeros, etc.. Tudo por causa da famosa “lista” – quer dizer, a divulgao pblica dos resultados das escolas secundrias do pas. Viu-se no abundante correio que o jornal, e muito bem, tem decidido publicar, viu-se nas reaces de professores, alunos e pais, viu-se nas conversas familiares ou nos grupos de amigos que mais directamente trabalham em educao.

Como se esperaria, a publicao das ditas classificaes, no modo concreto (e, sublinhe-se, diverso) como foi feita pela comunicao social, dividiu opinies e gerou polmicas acaloradas, ajudando a desfazer equvocos nuns casos, mas, noutros, a criar novos.

Um ponto parece hoje mais claro: quem, ao longo dos tempos, foi manifestando reservas divulgao pblica destes dados, no o ter feito por ser contra a transparncia da administrao pblica, mas por recear leituras apressadas e consequncias perversas do tratamento MERAMENTE QUANTITATIVO e BIPOLAR – a lgica dos “melhores” e dos “piores”, envolta numa capa de aparente objectividade de um complexo manancial de informao, com um nmero imenso de variveis.

Nem sempre estes opositores tero sabido explicar-se bem, e, sobretudo, no propunham alternativa aceitvel: esconder a informao s d mau resultado. Mas a verdade que alguns dos efeitos perversos j se sentiram. Com excepo do PBLICO e, em parte, do “Dirio de Notcias” (DN) – que tentaram aprofundar o tema e fazer da divulgao dos dados o ponto de partida de uma reflexo importantssima para a nossa sociedade , a generalidade dos “media” deitou ao ar meia dzia de listas, de “top tens”, para mais nem sempre coincidentes, e… adiante! Na cabea de muita gente, a nica coisa que ter ficado que “a escola do meu filho melhor que a tua” ou “a escola da tua terra pior que a da minha”. Com base em qu? Numa certa lista que um certo jornal fez sobre certos resultados de um certo ano, e que, sendo muito relativa, pareceu funcionar como absoluta!

Alis, este porventura o maior e mais fundo equvoco: no se pode dizer “A LISTA”, como o PBLICO entendeu escrever na sua manchete de segunda-feira. No h “a lista” das melhores e piores escolas, dos melhores e piores alunos; h muitas, muitas listas possveis. E cada uma vale o que vale.

O Pblico resolveu classificar as “cem melhores” com base nuns critrios: usou as notas dos exames nacionais do 12 ano, em oito disciplinas, excluiu os alunos externos e, dependendo das cadeiras, considerou s as que tinham pelo menos 10 ou 15 alunos. isto deu UMA lista. J o DN decidiu listar as “cem melhores” com base na classificao final do aluno (que pondera a nota do exame com a nota obtida no processo de avaliao ao longo do ano) e usou os dados de catorze disciplinas, em vez de oito. Isto deu OUTRA lista. Com algumas parecenas mas tambm com diferenas: por exemplo, a escola que “n 1″ para o DN “n 17″ para o PBLICO… E se, em vez de oito ou catorze disciplinas, se usassem s seis? Ou dez? E se fossem estas ou outras? E se se inclussem tambm os alunos externos? E se houvesse coeficientes de ponderao conforme o nmero de alunos? E se…? H dezenas e dezenas de listas possveis. H escolas que podem ser “boas” nisto mas “ms” naquilo (veja-se os “rankings” por disciplina).

E, esgotados todos estes “qus” de uma viso (hoje to na moda…) apenas quantitativa, estatstica, mensurvel, seguem-se os “comos” e “porqus” de uma anlise qualitativa, mais cuidada, que leve em conta as realidades sciais, econmicas, geogrficas, culturais, uma srie de variveis que ajudam a fazer justia s escolas concretas, e que no lanam sobre esta ou aquela o precipitado estigma de “medocre” ou “mau”.

No caso do Pblico, a “vitria” de uma longa campanha em favor da divulgao das notas implicava dois tipos de responsabilidades: 1) fazer um tratamento dos dados que no cedesse a tentaes sensacionalistas ou meramente quantitativas, e que deixasse bem claro o relativismo dos critrios adoptados nas listagens construdas, para no dar razo a quantos receavam simplificaes excessivas e redutoras; 2) que no se desse por satisfeito com a publicitao dos resultados at agora reservados, nem com a elaborao de meia dzia de “rankings” parcelares, mas pelo contrrio iniciasse a um grande debate sobre os “qus” e os “porqus” de situaes mais ou menos perceptveis neste mar de informao estatstica.

Uma e outra responsabilidades vm sendo de algum modo assumidas, embora o pudessem ter sido melhor. Chamar “a lista” a um dos muitos “rankings” possveis (dando a ideia de nico e absoluto, quando algo de relativo), no ter sido a formulao mais feliz. E, sem querer discutir os critrios adoptados nas listagens, convinha lembr-los constantemente ao abordar a matria, resistindo tentao de carimbar as escolas, de modo simplista, como “melhores” ou “piores”.

Quanto ao debate subsequente, tem sido muito interessante seguir no s o que vo dizendo os leitores (tanto argumento to perspicaz, tanta chamada de ateno to avisada…) mas tambm o trabalho jornalstico que procura esmiuar, agora no terreno, as realidades entrevistas nos nmeros. Espera-se que este esforo continue e se alargue a especialistas destas matrias, para enriquecer a reflexo comum. At para inibir aproveitamentos perversos: j h escolas a dizer que, sendo assim, sabem muito bem que expedientes usar para fazer subir a sua posio em “rankings” futuros, torneando questes e expondo apenas a nata dos seus resultados… Com isso subiro nas tabelas dos jornais mas… tornar-se-o melhores escolas?

Uma coisa parece incontornvel: peguem-se as listas por onde se pegarem (e elas do-nos algumas indicaes teis, sem dvida), confrontamo-nos com um pas partido em dois, muito desigual entre litoral e interior, entre rico e pobre, entre centro e periferia, entre quem vive em contextos scio-econmico-culturais mais ou menos favorecidos. Ora isto significa que a “batata quente” no est nas mos do Ministrio da Educao, ou dos professores, ou das escolas, porque o problema de fundo no s do sistema de ensino. Ele, afinal, espelha de modo eloquente (e, mantendo-se assim as coisas, ajudar a perpetu-lo) o modelo de pas que temos, o modelo de sociedade que construmos, o modelo de desenvolvimento a que nos acomodamos. E isso no diz respeito s s escolas; diz-nos respeito a todos, cidados. O desafio global. Portanto, melhore-se a escola, sim, mas no se faa dela o bode expiatrio de problemas mais gerais que, pelos vistos, no temos sido capazes de resolver.

EM SNTESE

Dvidas Uma tabela baseada em critrios relativos no deve ser exibida como absoluta

Cuidados H maneiras artificiais de subir num “ranking” sem melhorar uma escola

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